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quarta-feira, 10 de julho de 2013

[FEITO A MÃO] Lembranças - Parte I



Os focos da minissérie de contos que começa agora são dois irmãos. Rodrigo, quem também pode ser chamado de 'Drigo', que gosta de fotografias. E Diullia, uma garota que não se diferencia muito do perfil de muitas das jovens que podemos conhecer no Brasil. Por conta da amada mãe de ambos, deveriam  apenas sair e trazer algumas bijus para algum número de dança doido da mulher.
Isto é, se Drigo não tivesse levado sua irmã consigo e também sua câmera para juntos investigarem algumas respostas...






LEMBRANÇAS - PRIMEIRA PARTE 
   Ao longe, escutava-se o som de um gavião. O sol se escondia, disfarçando-se de branco, entre as nuvens de volumes diversos espalhados pelo plano de fundo de intenso anil. As luzes entravam entre as folhas, fazendo-as parecerem tão mais verdes do que são como amarelas.

— Não deveríamos ter vindo pra esta trilha. — uma garota sussurrou após engolir em seco.

   Seu irmão se virou, boné na cabeça e uma câmera analógica em mãos.

— Não se preocupe, Diullia. — ele assegurou com calma. — Afinal, você está comigo.

— Nem estou mais preocupada em estar sozinha. — a jovem estreitou os olhos, replicando meio irritada ao espiar os lados de relance e sentindo a água, na garrafa que carregava, ficar mais quente com o calor. — É só que, Rodrigo, esse caminho me dá um mal pressentimento. — revelou, mexendo em algumas mechas que o ar deixava escorregar para frente das orelhas.

— Mas você sempre diz isso. — apontou o garoto, virando-se para poder olhar o diafragma de sua câmera e dar uma pausa aos seus tênis brancos. — Há nada do que se ter medo.

— E é isso o que as pessoas dizem antes que ocorram coisas estranhas. — ela rolou os olhos.

— Ao menos, isso é nos filmes. — ele contrapôs, então prosseguindo a andar.

   “Esse garoto é tão cabeça dura!”, a menina pensou em frustração ao franzir a testa em uma expressão mimosa enquanto tirava a tampa da garrafa para dar um gole d’água. Para começar, ponderava, nem deveriam estar ali. A mãe deles pedira para que trouxessem algumas bijuterias com penas para que fizessem algum estranho número de dança. Tinham cerca de quinze anos e faziam caretas quando a mulher anunciava as ideias em voz alta no apartamento, mas mães são mães e não se poderia contestar se, pelo acaso da vida, fossem loucas.

    Tudo bem. Poderiam reclamar. Como ‘pessoas crescidas’ – ou assim a menina imaginava que ela e o irmão fossem –, sentiriam vergonha de certos julgamentos depois de um tempo como crianças. Por exemplo, Rodrigo (mais chamado de ‘Drigo’ pelos íntimos) era cercado de amizades com pessoas que não gostavam de ficar paradas e se moviam para capturar as fotos que tinham oportunidade. Enquanto isso, Diullia tinha seu grupo de amigos com quem se sentia bem a vontade – com os quais se divertia em cinemas, rodízios, conversas pelo celular e pelo facebook. Porém, os dois irmãos não gostariam de imaginar se algum de seus aproximados os vissem em alguma das elaborações da querida mãe deles.

    E perderam outra partida de convencimento, logo se renderam e se ofereceram para conseguir as linhas que a mulher precisava para a costura das fantasias deles. E era esse ponto que preocupava a moça. Tinham que já estar em casa, pois o relógio em seu pulso marcava o horário do almoço e encheram seus estômagos apenas com um lanche que o garoto comprou no meio do caminho. Ela não sabia por qual razão, ao ver uma trilha no mato, o rapaz quis adentrar sozinho – e como poderia deixá-lo sozinho?! – para tirar fotos de ‘coisas’.

    Coisas? Ele não quis especificar. Mas a menina sentia calafrios ao se ver emergida naquele verde gritante. Tinha algumas lembranças vagas – as quais que não se recordaria sobre o que exatamente ocorrera, nem que se esforçasse – de alguma coisa que os trouxera para aquele lugar. Antes, eram bem crianças. As ocorrências foram no número de sete e, depois que Rodrigo fizera nove anos, essas vindas pararam. Ou, ao menos, era o que seu cérebro confuso transparecia.

    Seja lá o que estivesse o atraindo (pois bem sabia que nem seu irmão tinha alguma informação sobre o que era aquele fenômeno), Diullia tinha certeza que não tinham que segui-la pela simples sensação de: Não deveriam mesmo estar ali.

— Hum... — o adolescente franziu os beiços ao encontrar as árvores mais juntas desde determinado ponto, além do solo íngreme. — Tenho certeza que já estive por aqui antes.

— Sua cara não diz a mesma coisa. — após segundos de analise da expressão dele, ela constatou antes de se virar para a gigantesca árvore de ramos retorcidos que se encontrava a metros depois de outras mais finas. — Só sei que estamos perdidos. — e se achou incrédula quando o irmão ergueu sua máquina antiga, mirou o olhar, ajeitou o diafragma, arrumou a posição dos braços, respirou fundo e clicou em um botão. — O que você está fazendo?!

— Tirando uma foto. — respondeu com uma inocência séria, inclinando suas costas para verificar a proporção e o efeito da luz. — Achei que devêssemos ter uma memória disso.

— Disso o quê? — ela questionou indignada. — Pelo amor, Drigo, não é hora de fotografias!

   Ele não pareceu ouvir. Houve uma determinação em mexer com a máquina, como se os dedos dele procurassem o zoom ideal para investigar algo. Ela, já não se vendo com escolha de atenção, pôs a mão livre na cintura e se aproximou dele. Ao fazer isso, notou um leve desespero nos olhos castanhos do irmão que dizia:

— Não tô conseguindo ver isso direito. — e um ‘clack’ da sua língua se disparou em frustração.

   Diullia estranhou. Posicionou-se próximo dele e esticou o pescoço para ver a foto.

— O que você está procurando? — quis saber, surpreendendo-se quando ele a mostrou.

— Você não está vendo esse borrão? — o dedo indicava um canto do plano, longe do foco.

— Deve ser apenas a lente suja. — tentou sugerir, despreocupada, ao notar o detalhe.

    Seu irmão a olhou por um breve momento, como se decidisse em não contar ou em contar alguma informação, até suspirar e dar a câmera nas mãos da irmã ao levá-la para um local menos iluminado perto dali. Os olhos da menina, expressivos, fitaram a tela e continuavam a tentar decodificar os traços que não conseguira ver anteriormente por conta do Sol.

    Era um rosto. Ou melhor, uma forma que se assemelhava muito a de algum homem. Nem uma criança, nem um idoso. A garota teve que piscar umas quatro vezes para acreditar que não era alguma maluca ilusão de ótica. Havia um espaço que se correspondia a alguma boca e parecia que a face se inclinara a eles.

    Era alguém quase translúcido em uma foto em cores. Conhecia a máquina alheia o bastante para saber que não tinha como Rodrigo ter editado a foto em poucos minutos. O vulto não parecia querer fazer nenhuma espécie de movimento pela imagem... Ela tinha a impressão dele estar apenas os observando. Espiando ela? Espiando seu irmão? O quê...

 — Drigo. — após ficar minutos sem reação, virou-se devagar para o menino. — Como?

— O que você viu na foto? — ela estranhou que ele não estivesse pirando, pois, bem...

    A garota não sabia se gritava ou não naquele exato momento.

— Eu notei isso há alguns meses. — essa foi a resposta dele ao vê-la sem palavras para confirmar a pergunta. — Mamãe tirou uma foto nossa no carnaval quando a comunidade da igreja resolveu fazer um evento aqui perto e... — lançou um rápido olhar à máquina. — Isso.

   Ela voltou a mirar a foto e então espiou o lugar onde Rodrigo a tirara. Seus olhos continuaram arregalados e a garota teve medo que suas mãos, naquele instante trêmulas, deixassem o frágil material cair no chão. Mas ao mesmo tempo, tinha aquele impulso de provocar fogo com algo de seus bolsos e pôr uma chama em cima daquilo.

— Vamos para casa... — suplicou ao irmão, pondo a câmera nas mãos cheias de calos dele e fez um grande esforço para manter a firmeza em sua voz. — Eu não disse que tenho uma má impressão sobre tudo isso? — por cima do ombro, observou as árvores finas que ficavam ao redor da maior e estas pareciam... se aproximar? Era tão escuro assim como antes? — Mamãe vai ficar preocupada conosco se nos atrasarmos demais. E não é bom ficarmos aqui. — segurou-se nas mangas do rapaz, quem também mandou uma face surpreendida com aquela mudança de ambiente, com um olho nele e outro no vento que fazia as folhas se curvarem.

    O sol parecia ser um observador distante agora. As plantas, eles sentiam, estavam mais próximas do que antes e a luz que se apoderava das áreas livres se tornara cada vez mais condensada e esbranquiçada. Reflexões laranjas e vermelhas começavam a se pronunciar sob o pigmento esverdeado de boa parte da mata que os forçava a seguir uma única possibilidade. O que mais os assustava, mais até do que a sombra, era o silêncio de toda aquela atividade.

— O que é tudo isso? — ela arremessou a questão assim que se experimentou encolhida.

— Parece que querem que nós possamos seguir aquele rastro. — Rodrigo presumiu.

— Mas como vamos fazer isso? — Diullia indagou entorpecida pelo receio, ainda próxima do irmão. — Precisaríamos cortar o caminho... Como vamos fazer se pegarem a gente?!

— Eles ainda não vieram, se é que existem. — após uma pausa de divagações, com a visão se movendo para diferentes direções (para a névoa, para o caminho, para as árvores e então para a irmã) até encarar o nada e molhar os lábios. — O jeito vai ser nós dois indo por lá e... — novamente, olhou ao redor, exatamente o chão, e avistou um galho caído. – arranjar um jeito para cortar uns galhos. – e, dos bolsos da calça, retirou uma bainha de couro de faca.

— Talvez eles possam estar nos esperando sair... — a menina tentou raciocinar com o irmão.

— Nunca vamos saber se a gente não tentar. — Rodrigo tomou a decisão após um longo tempo, empunhando o objeto para trás e retirando o tecido que cobria a lâmina.

   Ao se aproximarem, o menino na frente e a menina atrás, viram o emaranhado de galhos que se encaixavam para não dar espaço aos dois irmãos. Então, ele sulcou, com a faca, partes que os impediam de impor seus pés ali dentro. Deu algumas pancadinhas, sinalizando para que Diullia o acompanhasse: tiveram que se espremer, observando alguns feixes de luz azul se dispersarem na relva.

    Ouviam, algumas vezes, o cri-cri de grilos e também o ruído de outros insetos espiando entre as folhas. Uma mãe pássaro alimentava seus filhotes em um dos ninhos feitos ali em cima. Os jovens jurariam ter ouvido o escorregar de água, de algum riacho por ser um barulho morno e calmo, próxima dali.

   O mais estranho de tudo, ao menos para Rodrigo – quem posicionava a querida câmera perto do peito –, era o fato da árvore, a de tronco mais largo e parecendo majestosa em comparação às quais a cercavam, parecer se distanciar cada vez mais. Por mais que achassem, em algum momento, que conseguiriam. Os ramos das árvores – diluindo-se com arbustos e outras plantas, como também rochas no meio do caminho – se distanciavam e davam mais espaço para que os dois alcançassem o que parecia ser o fim.

    Uma enorme planta, metros e metros maior do que qualquer altura que tivessem na vida, erguia seus braços tortos para o brilhante céu. Ao chegarem ali, viram muitas folhas verdes, em forma de estrela, no chão. E uma abertura no meio, escura, por onde escapavam vozes.

Continua...

 

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